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Comida de criança ou publicidade abusiva?

Por:Francine Lima

Nunca eu tratei de um tema que fosse tão polêmico aqui no blog ou no canal de vídeos. No vídeo de 2014 sobre a resolução do Conanda, as discussões foram acaloradas. Agora, com meu vídeo sobre os ovos de Páscoa acompanhados de brinquedos licenciados, um ano depois da publicação da Resolução do Conanda no Diário Oficial da União, novamente os ânimos se inflamaram. A restrição à publicidade, seja ela direcionada à criança ou aos adultos, é um tabu enorme na sociedade brasileira. E possivelmente por isso virou tema da redação do Enem. Eu estou aqui mais uma vez para defender o meu ponto de vista.

Parte do público elogia e agradece o ponto dos dois vídeos, por entender que proteger as crianças da publicidade abusiva é uma forma de proporcionar a elas uma infância mais saudável em todos os sentidos. Mas uma parte considerável das pessoas que acompanham minhas publicações acredita que qualquer medida de restrição à publicidade é uma ameaça grave a liberdades individuais que supostamente são direitos humanos inalienáveis.

O argumento principal dessa segunda parcela do público é que somente os pais da criança têm o direito e o dever de educá-la, conforme os valores particulares desse pequeno núcleo familiar. Acredita-se que a visão de mundo desse pequeno núcleo familiar é a única autorizada a formatar o pensamento e as atitudes dessa criança. Pois eu acho que a noção que essas pessoas têm de liberdade individual e da responsabilidade dos pais pela educação das crianças merece uma revisão.

Acho que fica mais fácil defender meu ponto usando como exemplo extremista uma família fictícia do Oriente Médio, cujo chefe seja membro de algum grupo ultrarreligioso e ultraviolento engajado no combate a alguma crença religiosa e política diferente da sua. Vamos supor que esse chefe de família queira treinar o seu filho para ser terrorista. Você acha que nesse caso é válido o argumento de que são os pais e apenas os pais que devem educar a criança? Ou será que nesse exemplo fictício o Estado será bem-vindo no encaminhamento dessa criança a um destino melhor tanto para ela quanto para o seu país e o resto do mundo?

Agora eu volto a um mundo ocidental onde as corporações multinacionais e os supermercados são vistos como templos da civilização. Aqui, as famílias não treinam seus filhos para o terrorismo, mas os preparam para comprar todo tipo de novidade que o mercado oferecer, para defender as corporações e sua alegada “liberdade de expressão” (também conhecida como publicidade sem freios) a todo custo e dar as costas a pequenos produtores que ralam para oferecer produtos muito mais adequados à saúde da população. Está aí uma aberração chamada Kidzania para comprovar o que estou dizendo. Essas famílias, que também foram crianças educadas sob as mesmas leis capitalistas, não enxergam nenhum problema em perpetuar o comportamento consumista e destruidor de recursos naturais, pois acreditam ser livres para isso.

Mas tente enxergar além do núcleo familiar — esse núcleo familiar egoísta que acha que vive numa bolha. Tente enxergar cada criança, cada pai e mãe, cada família, como parte de uma sociedade em um país que foi colonizado primeiro pelos europeus, depois pelos norte-americanos e depois pelas corporações multinacionais que vendem aqui o que já foi proibido na Europa. Tente enxergar uma sociedade que precisa desesperadamente aprender a ser mais esperta e criativa e empreendedora pra sair do buraco eterno da ignorância e do ensino pobre. Essa sociedade precisa que as crianças e os adultos sejam educadas PELA SOCIEDADE, o que inclui os professores, os jornalistas e até os comerciantes, que podem decidir não vender ovo de Páscoa de grife e abrir um comércio justo só com orgânicos, por exemplo, em prol dos pequenos agricultores e do bem comum.

Quem é contra a restrição à publicidade também toma as dores dos publicitários e canais de TV com programação infantil, que ficariam sem mercado.

Mas tente enxergar os publicitários e designers tolhidos em sua “liberdade de criar e se expressar” como membros dessa sociedade que precisa evoluir. Tente enxergá-los não como coitadinhos que estão perdendo trabalho, mas como cúmplices de um sistema colonizador. Tente enxergá-los como profissionais que, se quiserem, podem mudar para o lado branco da força e trabalhar por uma comunicação que incentive práticas individuais mais humanas e cidadãs em vez de estimular o consumo de cigarros (cuja propaganda só foi proibida depois de muita polêmica e mimimi), remédios e refrigerantes.

Tente se lembrar de que somos todos membros de uma nação que vive num mesmo território, dependente da mesma água doce, dos mesmos rios, das mesmas florestas (cada vez mais desmatadas), do mesmo sistema de ensino pobre e estagnado. Tente se lembrar de que, pra ir pra frente, este país precisa de muito mais famílias educando seus filhos para serem pessoas melhores, com atitudes que beneficiem a todos, e não somente a si mesmas. E repense esse negócio de liberdade empresarial para fazer propaganda do que quiser e liberdade individual pra educar a criança como quiser. O país não é um bem individual. É de todos, e a legislação existe para organizar essa vida compartilhada.

Era este o meu recado. Obrigada por ler e compartilhar.





Para saber mais:

http://www.anvisa.gov.br/propaganda/marketing_alimentos_criancas.pdf

-RDC n. 24, de 15 de junho de 2010
http://observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed794_resolucao_para_controle_da_publicidade_e_questionada

Fonte: Canal do Campo a Mesa

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