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A Copa dos preços galácticos

Por José Guilherme

Existem lanchonetes paulistanas onde comer um sanduíche está custando o preço de uma refeição completa em Amsterdam ou Paris, com vinho e sobremesa. Apesar da formação de economista – ou talvez por isso mesmo – há coisas que não entendo.

O crescimento da economia brasileira propõe enigmas que as análises financeiras deveriam enfrentar. Será que o mercado de algumas regiões de São Paulo, por exemplo, está precificado em euros ou dólares? Hoje, caminhando por essas zonas, a quantidade de estrangeiros que encontramos é algo inimaginável há poucos anos. Nas calçadas, captamos conversas em inglês, francês, japonês e mandarim. Cidade global, "copal", preços galácticos?

No aeroporto de Cumbica, um quiosque qualquer chega ao cúmulo imoral de propor trocas assim: R$  6,00 por uma lata de alumínio pintada, lacrada, semi-fresca, cheia de um chá industrializado qualquer, com gostinho de limão flavorizado. Taxistas ao redor cobram cerca de R$ 120,00  para levar o passageiro dali até o Centro da metrópole. Em outros quiosques, pede-se R$ 5,00 por uma xícara de café expresso. "É a inflação dos serviços", dizem alguns, fingindo naturalidade. Nos últimos anos, a inflação imobiliária da capital foi simplesmente assustadora. Comprar um apartamento em Nova Iorque está apenas um pouco mais caro do que algo no Rio de Janeiro. Muitos jornais vêm tratando do assunto. Será uma bolha?

Na ciência da economia poucos modelos são capazes de determinar tetos de preço. Quem tem mais de 30 anos se lembra do nosso combate inflamado contra a inflação inercial. Não acho que estejamos de volta àqueles tempos – como alguns alardeiam por aí – mas sinto que existem certos bairros sustenidos, em nossas cidades, onde os preços praticados se baseiam numa espécie de leilão: o comerciante testa limites e ajusta-se a partir desse "termômetro".

Dentro desse tipo de lógica, "caro" é apenas aquele preço que ninguém aceita. Curiosamente, a cada três meses em média, as lojas se entopem de cartazes e rifam seus estoques com descontos de até 60%. Para muitos, as liquidações são momentos incríveis de negócio. Para mim, dão sempre a impressão meio mau-humorada de que ali, na hora da "queima", as coisas estão sendo oferecidas por um preço mais próximo do que valem. Antes que me acusem de inocente, não estou aderindo à nenhuma pregação religiosa sobre "preço justo".

A questão entretanto é que existem conhecidas equações componentes de custos que, em certas circunstâncias, parecem esquecidas por quem vende e, sobretudo, por quem compra. Um amigo que mantinha uma loja no entorno da rua Oscar Freire me disse certa vez em confidência: "Aqui, quanto mais barato o preço, menos a coisa vende". Meses depois fechou a loja, maldizendo a clientela.

Meses atrás, chegando de uma viagem, ajudei um alemão que vinha comigo no Airport Service Bus. Assim como eu, revoltara-se contra o preço dos taxis. (Não comentarei aqui o fato de São Paulo não ter um trem que ligue a cidade ao seu maior aeroporto, inaugurado há 30 anos.) Ajudei o colega viajante a localizar seu hotel, na rua da Consolação, assim que passamos em frente. Acanhado, quando estava para descer do ônibus, o homem me disse baixinho: "O que me surpreendeu até agora foram os preços elevados de São Paulo. É assim mesmo?".

Não deu para conversarmos muito, na curta parada. Mesmo que tivessemos horas, não sei se eu poderia explicar. Pois há coisas que eu mesmo não entendo, apesar da formação de economista.

(por josé guilherme pereira leite)

Fonte: Notícias Yahoo

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