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À procura de Pai Natal - Parte I

Uma série de artigos acerca do Pai Natal? Mas não há coisas mais interessantes?
O que há para contar ainda do velhote que entrega prendas às crianças?

Na verdade há. Mais do que um artigo, esta é uma investigação: quem é Pai Natal?

E desde já, fica o recado: nada de espírito natalício por aqui, pois as conclusões podem ser bem surpreendentes...


A história "oficial"

Segundo a versão normalmente aceite, a pessoa real que inspirou a figura de Pai Natal foi um bispo católico que viveu no século IV d.C., São Nicolau. O culto de São Nicolau foi um dos movimentos religiosos mais populares de todos os tempos.

De acordo com Charles W. Jones (medievalista norte-americanos do século passado):

Antes da Reforma, São Nicolau era dos santos mais queridos do cristianismo bíblico [...]. Antes do ano 1500, eram 2.137 as dedicatórias eclesiásticas atribuídas a S. Nicolau entre França, Alemanha e Holanda.

O popular livro The Christam Almanack afirma:

Na Idade Média, S. Nicolau foi provavelmente a figura mais citada nas orações cristãs, com excepção da Virgem Maria e do próprio Cristo.

S. Nicolau é rodeado por uma aura tanto mítica quanto misteriosa. Entre as lendas mais populares, há uma segundo a qual teria salvo três meninas pobres da prostituição. Essas meninas não tinham qualquer dote para casar-se: São Nicolau salvou as meninas duma vida de vergonha, dando-lhes presentes de ouro para que elas pudessem casar-se.

S. Nicolau, ícone russo do séc. XIX

Outro milagre atribuído a São Nicolau diz respeito a três meninos sadicamente mortos por um estalajadeiro mau, o qual teria rasgado em pedaços e armazenados em barris de salmoura os corpos, com a intenção de servi-los como comida para os inocentes clientes. S. Nicolau reconstituiu os corpos mutilados e ressuscitou os três rapazes.

Além disso, assim como o Pai Natal, São Nicolau trazia geralmente presentes caros para as crianças pobres, donde a sua veneração no papel do santo padroeiro das crianças. Durante a Idade Média, centenas de jogos e pinturas repetiam as obras do Santo.

Em meados do século 17, na Holanda, nasceu oficialmente a lenda de Sinter Klaas. As crianças holandesas começaram a tradição de pendurar meias na lareira, na noite de 5 de Dezembro, para celebrar a memória do bispo São Nicolau. Na manhã seguinte, as crianças encontravam presentes e guloseimas nas meias, deixados durante a noite por Sinter Klaas, tal como o actual Pai Natal que desce pela chaminé.

Em holandês, São Nicolau traduz-se Sint Nikolass, depois reduzida em Sinter Klaas: a versão anglicizada é Santa Claus.

Agora um passo atrás. No ano 1626, até o Novo Mundo chamado América.
Em busca do "Sonho Americano", os colonos holandeses partiram da Holanda e desembarcaram nas Américas, onde construíram a primeira colónia, baptizada New Amsterdam (a actual New York), e importar os seus costumes, incluindo o amado Sinter Klaas.

Em Dezembro de 1809, o escritor americano Washington Irving publicou uma sátira popular acerca da fundação de New York, intitulada A Knickerbocker History of New York. E mais do que qualquer outro elemento, parece ter sido a obra de Irving a criar a moderna figura de Pai Natal.

A causa? Os seguintes passos, que inauguraram oficialmente a entrada da Santa Claus na cultura de massa:

E o sábio Oloffe teve um sonho em que o bom São Nicolau veio num carro, por cima das copas das árvores, o mesmo carro no qual carrega as suas prendas anuais para as crianças. [...]

São Nicolau fumava um cachimbo, colocou um dedo ao lado do seu nariz, então voltou novamente ao seu carro e desapareceu sobre as copas das árvores. [...]

Naqueles primeiros dias, foi instituída uma piedosa cerimónia, ainda religiosamente observada em cada antiga família na nossa cultura, para pendurar uma meia na lareira, na noite de São Nicolau, de modo que de manhã possa encontrar-se milagrosamente preenchida com os presentes trazidos pelo bom São Nicolau, especialmente para as crianças.


O primeiro Pai Natal, de Thomas Nast
Agora um salto até 1822, quando um professor de teologia em New York, de nome Clement Clarke Moore, inspirado no retrato de São Nicolau descrito no popular livro de Irving, escreveu como presente de Natal para os seus filhos um poema intitulado: A Visit from St. Nicholas (Uma visita de São Nicolau).

O Dr. Moore não tinha intenção de publicar a obra, mas em 1823 um dos seus amigos decidiu apresentá-la de forma anónima ao jornal Troy Sentinel. O poema de Moore foi publicado e tornou-se tão popular ao ponto de atravessar todos os Estados Unidos, mais tarde conhecido com o título de The Night Before Christmas.

Os últimos retoques para a personagem de Papai Natal foram dados em 1863, pelo cartoonista Thomas Nast, que desenhou muitas versões do Santa Claus na revista Harper's Weekly.

Foi assim que ao mundo inteiro foi apresentada oficialmente a figura de Pai Natal.
O primeiro modelo de Nast era uma espécie de anão robusto, coberto por uma espessa pele cinzenta: bem diferente das versões alegres e coloridas que as décadas (e a Coca Cola) redesenharam mais tarde.

Incongruências

Esta relatada até aqui é a versão geralmente aceite da origem de Pai Natal; mas não é de todo a versão apoiada pelos historiadores. Para explicar as razões, vamos ler novamente a história, desta vez com uma lupa.

Existiu?

A primeira estranheza digna de nota na saga de Pai Natal é devida a dúvidas sobre a existência do bispo São Nicolau. Na realidade, temos bem poucas provas de que ele realmente existiu.
Encyclopedia Britannica:

A existência de St. Nicolau não é atestada por qualquer documento histórico, então não são conhecidos detalhes sobre a sua figura, a não ser que, talvez, fosse o bispo de Myra, no século IV d.C. [...]

Microsoft Encyclopedia Encharta:

São Nicolau (4º séc.), prelado cristão, padroeiro da Rússia, tradicionalmente associado às celebrações de Natal. Os episódios da sua vida estão confusos e historicamente não confirmados.

G. e P. Del Re, The Christmas Almanack, p 130:

Infelizmente, pouco se sabe sobre o real São Nicolau. Inúmeras lendas têm sido desenvolvidas em torno deste Santo muito popular, mas os registos históricos são escassos.

Em 1969, o Vaticano "desligou-se" oficialmente da lenda de São Nicolau . Apesar de estar entre os Santos mais populares e reverenciados do catolicismo romano, o Papa Paulo VI decretou a remoção da festa de São Nicolau do calendário católico romano, juntamente com as de 40 outros Santos, por causa da ausência de provas quanto à sua existência.

Microsoft Encyclopedia Encharta:

Dada a falta de documentação disponível sobre a vida do Santo, o Papa Paulo VI ordenou que a festa de São Nicolau fosse anulada do calendário oficial católico romano em 1969.

Pai Natal, 1875
Holandeses?


A segunda "estranheza" histórica no mito oficial de Papai Natal encontra-se nos escritos de Irving, o autor que apontou os holandeses como os primeiros que importaram na América a lenda de Sinter Klaas. Na verdade, esta é uma informação historicamente falsa.

Em 1954, o eminente historiador de São Nicolau, Charles W. Jones, publicou no New York Society Historical Quarterly uma refutação conclusiva da versão de Irving.

Demonstrou que os primeiros colonos holandeses de New Amsterdam pertenciam à Reforma Holandesa, a qual considera como herético o culto de todos os Santos, mas especialmente o de São Nicolau.

Jones produziu documentos em primeira mão que pertenciam aos primeiros colonos holandeses, documentos que lista as leis que proibiam expressamente qualquer festa de São Nicolau. Jones acrescentou que "não há elementos que alimente a ideia de que as leis fossem ignoradas".
Sempre Jones:

E - para ser mais preciso - Santa Claus não é um nome mutuado do idioma holandês. A expressão foi cunhada muito antes na Suíça e no sul da Alemanha.

São Nicolau e Santa Claus

Mais: muitos elementos levam a acreditar de que não haja nenhuma real conexão entre São Nicolau e Pai Natal. Algo que qualquer bom mitólogo sério poderá confirmar.
A seguir, algumas fontes, entre as muitas disponíveis.

P. Siefker em Santa Claus, Last of the Wild Men: The Origins and Evolution of Saint Nicholas:

Anos de pesquisa confirmaram a validade da dúvida inicial: Pai Natal é uma americanização, tudo bem, mas não um santo católico ( ... ) Apesar de um século de repetição, esta história é simplesmente falsa.

Santa Claus, T. Nast, 1881

F. Weiser em Handbook of Christian Feasts and Customs:

O dilema foi resolvido transferindo para Natal a tradicional 'visita' do 5 de Dezembro que os
holandeses recebiam da figura de Sinter Klaas, e introduzindo uma mudança radical na figura dele. Não foi uma coisa pequena, o antigo santo foi completamente substituído por um novo personagem. Santa Claus não tem nada a ver com o santo cristão do qual ainda leva o nome.

G. e P. Del Re, The Christmas Almanack:

Apesar de, no século 17, os holandeses terem importado o personagem de Sinter Klaas para o Novo Mundo, Santa Claus não nasceu antes do século 19 e foi uma criação toda americana e não holandesa.

Outro obstáculo na comparação entre São Nicolau a Santa Claus é a data da comemoração: São Nicolau era (e ainda é!) comemorado no dia 6 de Dezembro (alegada data da sua morte), não no 25 de Dezembro.

E até no mundo cristão não há unanimidade acerca de São Nicolau.

Na Grécia, São Nicolau é substituído por São Basílio Magno (Vasilis), bispo de Cesareia no IV século d.C., que traz presentes no dia de Ano Novo. E em algumas zonas da Flandres, na Bélgica, é comemorada a figura de St. Martin de Tours (Sint-Maarten).

E ainda antes da era cristã na Europa havia um Pai Natal.
Mas disso vamos falar na segunda parte.


Ipse dixit.

Bibliografia:
C.W. Jones, Knickerbocker: Santa Claus, The New York Historical Society Quarterly, Outubro 1954:
Vol. 28, n. 4, pág. 357, pág. 366
Del Re, Gerard e Patricia: The Christmas Almanack, Random House, 2004, pág. 131, pág. 141
W. Irving, A Knickerbocker History of New York, F. Ungar Publishing, 1928, pág. 68
Encyclopedia Britannica
P. Siefker, Santa Claus, Last of the Wild Men: The Origins and Evolution of Saint Nicholas, McFarland & Company, Inc., 1997, pág. 57
F. Weiser, Handbook of Christian Feasts and Customs, Brace & World, Inc., 1952, pág. 114

Fonte: Informação Incorrecta

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