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Envenenados Parte 2: agrotóxicos contaminam cidades, intoxicam pessoas e já chegam às mesas dos brasileiros

Veja a parte 1 Todos os anos, milhares de habitantes do campo são intoxicados. Alunos atingidos por pesticidas, resíduos no leite materno e alta em taxas de câncer acendem um alerta entre pesquisadores sobre falta de controle das substâncias no Brasil

Por Tiago Mali

SEM PLANO DE VOO
Agrotóxicos por avião atingem escolas, água e habitantes rurais

A pulverização aérea, única com legislação específica no Brasil, deve se feita a no mínimo 500 metros de povoamento. Em Rio Verde, a distância não foi respeitada. Além disso, o agrotóxico era de aplicação proibida por avião. “Infelizmente, isso não é raro”, diz o deputado Padre João (PT-MG), redator de relatório da Câmara sobre Consequências dos Agrotóxicos na Saúde.

O Sindicato das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag) alega que foi uma exceção. No entanto, embora não exista registro confiável, queixas de problemas semelhantes se acumulam. Como em Pompéu (MG), onde a comunidade quilombola Saco do Barreira apresentou denúncia de contaminação da água do rio que os abastece e de quatro pessoas banhadas na passagem de um avião. Ou em Vila Valério (ES), onde uma lei municipal proibiu a pulverização aérea após a denúncia de uma escola atingida. Outro colégio foi banhado por pesticidas, denunciam moradores, em São Gotardo (MG). Há mais relatos também em Limoeiro do Norte (CE), Lucas do Rio Verde (MT) e Jequitinhonha (MG).

Agricultores de vizinhos a grandes fazendas também reclamam de danos às plantas pelo "vazamento" da pulverização. A Campanha Permanente Contra o Uso de Agrotóxicos e Pela Vida pede que esse tipo de aplicação seja banida, a exemplo do que já acontece na União Europeia. Eles citam dados da Embrapa dizendo que, como o vento é muito imprevisível, até 70% dos produtos podem não atingir o alvo. O Sindag contesta a análise. “Isso equivaleria dizer que os produtores rurais estariam jogando pelo ralo quase um quarto do investimento em defensivos."


OS DANOS À SAÚDE

Estudos indicam graves riscos em regiões rurais, mas não são consenso entre pesquisadores

O debate sobre o risco que a população corre por conta do uso mal fiscalizado de agrotóxicos no Brasil tornou-se mais intenso a partir de 2012, quando a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) reuniu um dossiê de 473 páginas com estudos relatando contaminações ambientais por agrotóxicos em regiões rurais do país — locais que também apresentavam mais doenças crônicas, como câncer, relacionadas aos químicos.

No entanto, as pesquisas epidemiológicas no dossiê não indicam uma relação direta de causa e efeito. “É muito difícil dizer com 100% de certeza. Mostramos fortes indícios e pedimos mais investigação, além de uma postura de mais precaução”, diz o biólogo Fernando Carneiro, chefe do departamento de Saúde Coletiva da UnB e um dos organizadores da iniciativa.

"O dossiê pinçou estudos experimentais, alguns com metodologia fraca. Tem mais viés ideológico que científico”, critica o toxicologista Ângelo Trapé, doutor em Saúde Pública pela Unicamp, que coordena um programa de saúde de populações expostas a múltiplos agrotóxicos. Trapé afirma que acompanhou, nos últimos 15 anos, a situação de 15 mil agricultores e que, durante esse tempo, não encontrou efeitos significativos de doenças crônicas pela exposição aos pesticidas. Para ele, sua pesquisa indica que não há motivo para preocupação, o oposto do que diz a Abrasco.

Já Ubirani Otero, gerente da área de Vigilância do Câncer Relacionado ao Trabalho no Inca, diz que há motivo para alerta. Ela cita uma revisão de estudos recente da American Cancer Society mostrando que trabalhadores rurais nos EUA apresentam taxas mais elevadas para 15 tipos diferentes de câncer. “É necessário fazer pesquisas mais detalhadas no Brasil, de coorte [que acompanham grupos em risco por décadas]”, diz Ubirani. “Só que a literatura internacional já relata muito bem isso e há indícios graves no Brasil. Vamos esperar 20 anos com gente ficando doente até o estudo terminar?” A Abrasco trabalha em um dossiê latino-americano sobre o assunto. Por sua vez, Trapé diz que pretende produzir um documento com outros pesquisadores para apontar erros nas pesquisas citadas pela entidade.

FALTA DINHEIRO, FALTA EQUIPE
EUA têm mercado 24% maior que Brasil, mas quase 20 vezes mais técnicos

Em 2012, os Estados Unidos, maior mercado de agrotóxicos do mundo, movimentou US$ 12,9 bilhões. No Brasil, segundo maior, foram US$ 9,7 bilhões, só que com uma estrutura de regulação muito inferior.

Eles têm 18 vezes mais especialistas para avaliar agrotóxicos que o Brasil (veja ao lado), mas fazem a indústria pagar muito mais. “Houve um pacto. A indústria aceitou pagar mais, o que trouxe mais recursos para os órgãos reguladores. Aqui nada disso foi feito”, diz o economista Victor Pelaez, da UFPR. "Há um projeto de lei que propõe aumento das taxas para pura e simplesmente contratar mais gente. Pra continuar tendo a ineficiência que tem? No way, não pagamos”, diz Eduardo Dahler, presidente da Andef, que critica a demora para a aprovação. "A indústria estaria disposta a pagar, mas só se houvesse mudança de processo."



BRASIL É DESTINO DE BANIDOS
Lentidão de avaliação faz com que país receba agrotóxicos proibidos lá fora

Para aprovar o ingrediente ativo de um agrotóxico no Brasil, as empresas apresentam estudos que, entre outras coisas, devem provar segurança para a saúde. Só que, como as pesquisas são feitas em laboratórios com animais, é comum não detectarem riscos presentes em condições reais de uso, que vão aparecer só depois, em estudos de campo. É preciso ficar atento. Por isso, em países como os EUA, Japão ou na Europa, é exigido que, depois de um tempo de uso, seja feita uma reavaliação, e que a empresa prove de novo, agora já à luz dos estudos em condições reais, que ele continua sendo seguro. No Brasil, não existe essa reavaliação periódica.

Por aqui só se revisa um produto quando a Anvisa, com seu quadro limitado de funcionários, decide abrir um processo de reavaliação. “Só que aí há uma inversão do ônus da prova. Em vez de as empresas terem de provar novamente que o produto é seguro, é a Anvisa que tem de provar que é cancerígeno”, diz Lia Giraldo, pesquisadora da Fiocruz. Por conta disso e de lentas disputas judiciais, de 14 ingredientes ativos colocados em reavaliação pela Anvisa em 2008, apenas 5 tiveram a análise concluída até agora, com 4 banidos (veja mais no quadro Reavaliação). Enquanto esse resultado final demora a chegar, algumas substâncias perigosas já proibidas em outros países começam a entrar mais no mercado brasileiro. Desde que a China proibiu 5 compostos em 2007, “grande parte dos estoques chineses passaram a ser enviados para o Brasil”, diz documento da Anvisa. Dessa forma, alguns produtos em vias de serem proibidos pela alta toxicidade passam a ter aumento de importação no país. Foi o que aconteceu com o endossulfam e o metamidofós, recentemente proibidos pela alta toxicidade, e o paraquate, ainda em reavaliação.



REAVALIAÇÃO

Agrotóxicos que esperam decisão final desde 2008

Veja abaixo os 9 ingredientes ativos de agrotóxicos que estão em reavaliação desde 2008, mas ainda não têm resultados publicados. Para alguns deles, como o paraquate, a importação cresceu até 260% enquanto nada é decidido.



ALERTA AO CONSUMIDOR

28% dos alimentos in natura são inadequados quanto a agrotóxicos

A Anvisa todos os anos coleta uma série de amostras de alimentos in natura e analisa o seu teor de agrotóxicos. A última edição do relatório (até o fechamento desta edição) considera 28% das 2.488 amostras analisadas inadequadas. Isso acontece principalmente pelo uso de substâncias não aprovadas para aquele tipo de cultivo e, em menor grau (3,6% do total de amostras), por ter sido encontrado um nível de agrotóxicos acima do limite máximo de resíduos permitido.

Os resultados não indicam que o consumidor possa passar mal e se intoxicar logo após consumir um tomate, já que são doses baixas. Especialistas divergem, no entanto, sobre problemas de longo prazo que podem aparecer pela ingestão reiterada dos químicos. Para o toxicologista Ângelo Trapé não há risco. “Há um alarmismo. A maior parte está abaixo do limite de resíduos. A dose é que faz o veneno.” Outros especialistas alertam para o fato de que, em todos os alimentos, foram encontrados resíduos de mais de um químico não permitido. Só no pimentão, foram 24 ingredientes proibidos para aquele cultivo. "Não sabemos que efeito têm esses ingredientes juntos. Enquanto consumidora, não me sinto segura”, afirma Raquel Rigotto, da Federal do Ceará. “Quando se trata de câncer, não há essa história de ‘a dose faz o veneno’, não há limite seguro de ingestão de agrotóxicos”, diz Ubirani Otero, do Inca. Mas o que fazer então? “Nós do Inca não recomendamos reduzir o consumo de frutas e legumes. Há benefícios bem documentados de que eles ajudam a prevenir o câncer. Recomendamos é priorizar os orgânicos.”



Fonte: Revista Galileu

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