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Verdades do futebol: Investigação da Receita Federal revela que o futebol joga na sonegação

A Receita Federal já sabe por que o futebol, maior sucesso de público do Brasil, é um completo fracasso financeiro. Conduzidos por amadores, freqüentemente mal-intencionados, os negócios do esporte preferido dos brasileiros oscilam entre a clandestinidade e a ilegalidade. Crimes previstos no Código Penal, como a sonegação de impostos, a falsidade ideológica e o estelionato, são ingredientes obrigatórios nas transações envolvendo federações, clubes, jogadores e empresários. "Todo clube brasileiro tem caixa dois", diz um dirigente gaúcho. "Não há um só que sobreviva sem essa prática." A Receita Federal concorda. Uma investigação do Leão entre os 24 participantes do último campeonato brasileiro revelou que apenas São Paulo, Corinthians e Portuguesa estavam em dia com a Receita. Os demais receberam multas que, somadas, chegam a 32,5 milhões de reais. Acrescidos os débitos com o PIS e o Cofins, a dívida chega a 40 milhões. A Previdência também está de olho no futebol. Apenas treze grandes clubes devem 35 milhões de reais.

Além dos clubes, seis das mais espetaculares pessoas físicas dos gramados foram notificadas para prestar esclarecimentos ao Leão. A lista é encabeçada por Ronaldinho, o jogador mais caro do mundo, que segundo a Receita nunca apresentou declaração de rendimentos. "Quando morava no Brasil, ele ganhava 500 reais por mês e estava isento", justifica-se seu representante, Alexandre Martins. "No exterior ele sempre prestou contas ao Fisco do país onde mora." Pode ser verdadeiro e correto, mas a Receita nunca foi informada a respeito. Romário, multado em 2,5 milhões de reais por irregularidades na contabilidade da empresa RSF, está recorrendo para reduzir a pena. A RSF, encarregada de negociar sua imagem, aparece no nome de seus pais. No caso de Djalminha, recentemente vendido pelo Palmeiras ao La Coruña, da Espanha, o Leão suspeita que o valor real da transação tenha sido o dobro dos 10 milhões declarados. Djalminha, que, por lei, tem direito a 15% do valor do passe, teria assim recolhido metade do imposto devido. Também fazem parte da lista Renato Gaúcho, Edmundo e Marcelinho Carioca.

Uma das regras de ouro dos negócios do futebol brasileiro é fazer uma coisa e escrever outra. Fabiano, um dos destaques do time do Internacional de Porto Alegre, que lidera o campeonato brasileiro, ganhava 10.000 reais por mês até dezembro do ano passado. Mas em sua carteira de trabalho de atleta profissional está registrado salário de 5.000 reais. "Isso acontece em quase todos os clubes do Brasil", relata o jogador. "A gente passa no caixa, assina um recibo e recebe o complemento." O mineiro Emerson Leite da Silva passou as últimas temporadas defendendo timecos como o Concórdia, de Santa Catarina, e o Paraisense, de Minas, sempre ganhando mais do que o registrado em carteira. Sua última experiência foi no Mamoré, de Patos de Minas. Com salário oficial de 120 reais ele recebia na verdade 600 por mês. Quando o clube foi desclassificado do campeonato e se desfez, Emerson ficou desempregado e com três cheques sem fundos nas mãos. Está buscando seus direitos. Na Justiça poderá ter uma surpresa. "Além de ser enquadrado como sonegador, o atleta só tem direito ao que está escrito na carteira", adverte Wilson Piazza, campeão do mundo na seleção de 1970 e há vinte anos presidente da Associação de Garantia ao Atleta Profissional de Minas Gerais. Em 1968, aceitou do Cruzeiro um posto de gasolina como parte do pagamento. "Eles alegaram que desse modo pagariam menos imposto na fonte. Aceitei de inocência pura", confessa o ex-jogador.

Esporte nacional Dos oitenta clubes profissionais de São Paulo, 35 não pagaram a contribuição sindical neste ano. Na Justiça do Estado, correm mais de 100 processos de jogadores cobrando o fundo de garantia que os clubes não recolheram. "Pagar imposto não faz parte da cultura de nossos dirigentes", diz Rinaldo Martorelli, ex-goleiro do Palmeiras e da Portuguesa e presidente do Sindicato dos Atletas de São Paulo. Isentos de pagar impostos, os clubes, não satisfeitos, se apropriam do imposto na fonte que descontam de seus jogadores. "Só isso já era suficiente para que a Receita Federal suspendesse a isenção fiscal", avisa o advogado tributarista Raul Haidar. Mas essa é apenas a parte mais transparente do nebuloso negócio do esporte. O Leão vai investigar também os contratos de patrocínio e a compra e venda de jogadores para o exterior, duas das principais fontes de renda dos clubes hoje. As apurações devem começar pelo milionário contrato de 400 milhões de dólares assinado pela CBF com a Nike. "A Receita está certa. Se todo mundo paga imposto de renda, por que clubes e jogadores não pagariam?", diz Ricardo Teixeira, presidente da CBF. Além da pessoa jurídica CBF, o Leão está curioso para bisbilhotar também as contas da pessoa física de seu presidente.

As transações envolvendo jogadores brasileiros no início da temporada européia, neste ano, superaram os 100 milhões de dólares. O Leão teve sua atenção despertada pela desenvoltura em manipular grandes quantias dos empresários que atuam como intermediários nesse mercado. Entre esses está o uruguaio Juan Figer. Residindo em São Paulo desde 1969, Figer tem na Internet uma página com o nome dos 23 jogadores que representa. O Fisco suspeita sobretudo das ligações de Figer com o Central Español, um pequeno clube do Uruguai que o empresário utiliza como entreposto para suas operações. "O último negócio que intermediei foi a venda de Amoroso do Guarani para a Itália", diz Figer. "Recebi uma comissão com nota fiscal e imposto descontado na fonte. Não tenho nada a esconder da Receita."

Fontes: Veja , Guerreiro do Apocalipse

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