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Sete dicas para defender-se da propaganda enganosa

Por Mustafá Ali Kanso

PRODUTOS B.O.

No final de 1999 fiquei chocado pela revelação realizada pelo então presidente da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias da existência de medicamentos catalogados como B.O., ou seja, “bons pra otário” – referindo-se a medicamentos “que não possuíam eficácia comprovada ou que gerariam bônus para as próprias farmácias em vendas preferenciais”.


Muitos desses “medicamentos” promovidos por gigantescas campanhas de marketing e contando com a suposta coparticipação de alguns médicos e farmacêuticos se tornariam rapidamente campeões de venda por todo o país.

Estava sendo “comprovado” oficialmente o que todos já sabíamos!

PROPAGANDAS ENGANOSAS

Cito este caso antigo, apenas para exemplificar essa obviedade, que mesmo entre especialistas, tais como farmacêuticos, médicos, químicos e também marqueteiros, existem aqueles que mentem por dinheiro.

Além das questões vitais como a necessidade de tratamento médico que nos obriga a ir à farmácia em situações pontuais, somos bombardeados diariamente com dezenas de propagandas de diversos produtos “maravilhosos” que irão atender necessidades que nem sabíamos que possuíamos.

Desde remédios milagrosos que prometem emagrecimento instantâneo, vitaminas rejuvenescedoras, a desodorantes que nos tornam irresistíveis do ponto de vista sexual e pedras supermagnéticas orientais (de origem milenar) que prometem cura espetacular e em poucas horas para problemas da coluna.

Até que ponto estas “promessas milagrosas” realizadas pelas campanhas de marketing, penetram em nosso subconsciente e nos programam para o consumo desses produtos?

Até que ponto a pretensa “autoridade” de especialistas comprometidos com determinadas campanhas publicitárias são capazes de nos induzir ao erro na hora de decidirmos pela compra, seja de um antiácido, seja de uma determinada marca de sabão em pó?

Até que ponto marqueteiros das mais diversas correntes de pensamento conseguem “fazer a nossa cabeça” para que compactuemos com suas ideologias e crenças e passemos, então, a contribuir, em dinheiro e/ou trabalho, assídua e generosamente para o êxito de sua “causa”?

SETE DICAS CARTESIANAS OU COMO NÃO CONSUMIR B.O.

Fundamentado nos trabalhos de Roger Bacon, René Descartes, Karl Popper, Karl Sagan, entre outros, rascunhei humildemente algumas dicas que talvez possam nos defender dos efeitos persuasivos da propaganda enganosa e solicito aqui, ao querido leitor que, ao mesmo tempo que as testem, também as julguem e, quem sabe me ajude, com sua experiência de vida, a completá-las.

Eis minha lista:

Nunca aceitar ou rejeitar uma informação sem antes:

1. Investigar a probidade, a isenção da fonte e as evidências que a corroboram;

2. Consultar outras fontes que sejam tão ou mais isentas ou probas;

Eu, por exemplo, sempre investigo o currículo, e a carreira de um médico antes de consultá-lo e busco na literatura médica (e na bula) a confirmação da posologia do medicamento que ele me prescreveu, seus efeitos colaterais, etc. Na dúvida, sempre consulto outros médicos, pedindo uma segunda ou terceira opinião.

Com esse expediente pude evitar uma cirurgia desnecessária de um familiar prescrita por um péssimo profissional – o qual, evidentemente, denunciei ao órgão competente (CRM).

3. Examinar à luz da razão e do bom senso, sua lógica, viabilidade e/ou usabilidade contrapondo-as às informações colhidas em diversas fontes;

Um ex-aluno me contou que foi a dois especialistas consultar sobre uma forte dor na base do pescoço.

O primeiro recomendou que diminuísse o número de horas frente ao computador e que seguisse um programa de tratamento fisioterápico, com exercícios de compensação, acompanhado por um tratamento com analgésicos e anti-inflamatórios;

O segundo recomendou um tratamento caríssimo com luzes coloridas, travesseiros dotados de pontos supermagnéticos da medicina milenar oriental (igualmente caríssimo) e uma terapia “alternativa” de vidas passadas mediada pelo espírito reencarnado de um “alfa-centauri” ou “atlante galático” (para livrá-lo do “encosto”).

4. Tomar cuidado redobrado com tudo que queiramos (profunda e apaixonadamente) que seja verdade;

Posso citar o caso de vários conhecidos (muitos deles dotados de boa instrução) que compraram toda a sorte de produtos “milagrosos” contra a calvície. Assim como de algumas ex-alunas que se endividaram com programas fantásticos de emagrecimento instantâneo (e continuaram gordinhas).

Todos tinham a esperança que alguns desses produtos milagrosos funcionassem.

Num contraponto, bem divertido, um porteiro de um prédio em que morei (que era calvo, desde os trinta anos), me afirmou, certa vez, com orgulho juvenil que “nunca caiu numa dessas roubadas” enquanto sacudia o encarte de propaganda em uma revista.

Em suas palavras:

- “Se os atores Sean Connery, Patrick Stewart e Bruce Willis continuam calvos em plena Hollywood do século XXI é porque essas coisas não funcionam! Ora bolas! É só querer ver”!

5. Avaliar qual o custo ou prejuízo ou danos potenciais frente aos seus benefícios presumíveis;

6. Tomar cuidado redobrado com tudo que subverta ou ignore as leis da natureza e/ou que apele para o maravilhoso, fantástico, inexplicável ou fabuloso – pois afirmações extraordinárias requerem provas extraordinárias;

Gostaria de unir aqui a exemplificação das dicas 5 e 6, na anedota que figura no livro Mundo de Sofia de Jostein Gaardner:

Conta-se que o eminente cientista Niels Bohr, ganhador do prêmio Nobel de física de 1922, mesmo sendo um cético contumaz, mantinha uma ferradura dependurada na porta de sua casa. Um dia, ele recebeu a visita de um amigo igualmente cético que supreso com aquela demonstração de superstição popular, o questionou:

- Quer dizer que você acredita nessas coisas?

E Bohr respondeu:

- Não. Mas me disseram que apesar disso a coisa funciona!

Sem dúvida ele possuía um ótimo senso de humor! Além do mais, ferraduras são coisas extremamente baratas.

(Em tempo: eu apliquei essa piada a um ex-aluno quando ele visitou minha casa pela primeira vez. Espero que ele já tenha me perdoado!).

E antes de apresentar a sétima e última dica, gostaria de citar aqui, o célebre Francis Bacon, autor do primeiro esboço racional de uma metodologia científica, que nos alerta, já em seu Novun organum (aqui numa tradução de minha humilde autoria), que mesmo escrito em 1620 carrega, a meu ver, a atualidade de um genuíno “método novo”, do qual foi extraída acintosamente a minha quarta dica, como poderão comprovar:

“A compreensão humana não é livre de interesses; recebe influxos da vontade e dos afetos (…). Pois, um homem acredita mais facilmente naquilo que ele gostaria que fosse verdade, ao mesmo tempo, que ele rejeita rapidamente”:

•“As coisas difíceis a seu entendimento por pura preguiça de pesquisar”;
•“As coisas sensatas por abaterem sua esperança”;
•“As coisas fundamentais da natureza por pura superstição”;
•“A clareza da experiência alheia (que é negligenciada) por seu orgulho e por sua arrogância (…)”.
Entendendo, aqui, que a última dica, a mais importante de todas seria:

7. Perguntarmo-nos, se temos nos investigado e nos questionado o suficiente, a ponto de identificarmos o quanto já sabemos sobre nosso próprio querer e o quanto ele interfere em nosso discernimento.

Fonte: Hype Science

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