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A Terceira Vaga e o alerta de mudança

A Terceira Vaga é um livro publicado em 1980 por Alvin Toffler. Com ar futurista, baseia-se na história da humanidade para descrever a configuração que tomará o mundo uma vez superada a era industrial, o que significa ao mesmo tempo a superação das ideologias, modelos de governo, economia, comunicações e sociedades estruturadas ao redor da produção centralizada, por exemplo, o industrialismo capitalista e comunista.

Apesar de ter várias décadas, o conceito expresso em muitos aspectos, é bastante actual. A sua leitura permite entender que processos como a globalização estão mais perto da evolução humana ou da evolução cultural, que de uma conspiração de poderosos.

Ouvi uma entrevista de Carlos Vaz Marques em 2008, na TSF, no programa "Pessoal e Transmissível" a Alvin e Heidi Toffler e tenho muitas vezes pensado nas suas palavras, pesquisei e resolvi ouvir de novo a entrevista que recomendo vivamente,
"Nós escrevemos um livro, fizemos um filme e fomos à China. Eu sabia que se a China adoptasse o livro e fizesse a divulgação necessária, as nossas ideias iriam mudar a China... e mudaram!" Heidi Toffler
Só soubemos do impacto das nossas ideias anos mais tarde. Do livro foram tirados no início, 3000 exemplares para os mais importantes do Comité do Partido Comunista Chinês. Depois disso, o livro foi publicado em tiragens de milhões de cópias e amplamente difundidos nos meios escolares e por toda a China, um país conservador e com receio de mudança. Foi dos livros mais vendidos na China e no Mundo e nós não ganhamos um tostão!

Não acreditamos em análises de tendência porque são projecções lineares. Essa é a forma mais comum de projecção e erram sempre. As tendências tem de ser projectadas em espirais. De fora conseguimos ver como as coisas vão evoluir. Dentro somos influenciados por várias coisas, como a tradição por exemplo.

A União Europeia não quer acompanhar a Terceira Vaga. Entristece-me o facto quee há dez anos atrás, em 1998 na cimeira de Lisboa da União Europeia, tenham mostrado interesse na Terceira Vaga e tempos mais tarde tenham dito que ainda estavam muito atrasados na implementação dessa teoria social. A Europa é muita velha e tem medo da aventura, da inovação, devido à tradição, mas a China é ainda mais velha. Na Terceira Vaga, a China vai na frente. A UE começa agora a acordar. O mais difícil vai ser mudar as Instituições. Não podemos mudar se não mudarmos o Sistema Político. A burocracia é um entrave. Estamos a assistir ao desmoronamento das instituições burocráticas. A burocracia não se consegue adaptar. São arranjos e invenções num contexto de sociedade em forma de pirâmide e que se está a desmoronar. Temos de alterar o nosso sistema educativo, isso é fundamental. Não Queremos um sistema escolar que crie pessoas jovens para um sistema fabril, repetitivo e desumano, para isso foram criadas as máquinas. Isso já não é possível. Vamos ter de inventar novos sistemas educativos, para jovens não automatizados pelo sistema capitalista. A parte humana é agora o conhecimento

"Não há almoços grátis", uma máxima que não faz sentido. Estamos a caminhar para um estádio muito penoso para muitos e que já o é para muitos outros, mas que será benéfico para a espécie humana no futuro. A riqueza não pode ser medida em valor monetário. Os economistas trabalham com base em ideias que foram criadas no inicio da Revolução Industrial, mas que são obsoletas, por isso e para eles, essa velha máxima faz sentido. Têm de alterar a bibliografia básica. Vamos para uma economia baseada no conhecimento. O petróleo esgota-se mas a geometria não. O conhecimento é "o almoço grátis".

"Caminhamos para a desmaterialização. Os valores materiais não estão mortos, mas caminhamos para a desmaterialização. Ainda há muita gente que mede a sua riqueza pela conta no banco. Os mais ricos não precisam de mais dinheiro, mas querem-no e perseguem-no. É um jogo que jogam com outros como eles a ver quem ganha. É uma forma de provarem a sua masculinidade. É fruto da educação da competição capitalista. Apenas um jogo viciante."

"Teremos terríveis convulsões e muito sofrimento mas talvez ao fim de um século a humanidade terá dado um importante salto para a humanidade a nível espiritual."»

Ironicamente Alvin Toffler foi considerado e catalogado como escritor de ficção.

A Terceira Vaga é uma obra explosiva que altera dramaticamente a maneira como cada qual se vê a si próprio e analisa o mundo que o rodeia. Antevê a economia do mundo do futuro e o sentido de personalidade individual e familiar numa sociedade pós-nuclear, assim como as atitudes sexuais dos humanos vindouros, as suas preferências no campo da política, do trabalho e dos lazeres. A Terceira Vaga é pois uma antecipação iluminada do amanhã.

Primeira Vaga
Alvin Toffler chama Primeira Vaga ao período em que surgiu a revolução agrícola (desde o ano 8000 a.c. até ao século XVII). Supera-se a etapa da caça e pesca e nasce a agricultura. Como consequência disso:
  • Surgem novas estruturas como o comércio e as primeiras aldeias.
  • O homem começa a abandonar a sua condição de nómada para adquirir o estilo de vida sedentário.
  • O homem já não aceita o meio que o rodeia, e começa a transformá-lo. Desenvolve-se a agricultura, a pecuária, a tecelagem.
  • Nasce o conceito de trabalho
  • Começa o crescimento demográfico
Consequências: surge a necessidade de criar novas estruturas para organizar a crescente sociedade. Assim nasce a navegação, o comércio e a urbanização

Economia e produção

O sistema produtivo da primeira Vaga baseia-se no conceito de "prosumidor" (fusão entre Produtor e Consumidor): A unidade económica produzia para si mesma, e portanto "vivia do seu". A única fonte de energia era o esforço físico humano e animal.
A unidade económica da Primeira Onda era pequena e auto-suficiente. Geralmente a unidade económica era a família que vivia do que cultivava nos campos. Noutros casos a unidade económica era o feudo, igualmente auto-suficiente.

Sociedade

Durante a Primeira Vagaa a população podia-se distinguir entre "primitiva" e "civilizada". As primeiras caracterizavam-se por viver em pequenos grupos e tribos e viviam principalmente da caça e pesca. A população "civilizada" caracterizava-se por trabalhar principalmente no cultivo dos solos (a agricultura) causa que deslocou as actividades de caça e pesca e que modificou as estruturas.

Comunicações

A dinâmica de comunicação da Primeira Vaga era a comunicação um para um. Existiam escribas e mensageiros que se dirigiam a uma zona para obter informação e a levar para outra.

Energia

A principal fonte de energia era o esforço físico humano e animal, um aproveitamento primitivo de fenómenos naturais dependentes do sol, do vento, das chuvas ou das marés.

Segunda Vaga

Surge entre os anos 1650-1750, com a Revolução industrial. Esta revolução não só muda a forma de produzir bens, como a organização do mundo. O desenvolvimento de novas tecnologias fizeram com que se criassem gigantescas máquinas electromecânicas. Entre os factores mais relevantes que deram origem a esta Era, estão a máquina a vapor e a imprensa, ambos substituíram o trabalho manual e tiveram enorme impacto no desenvolvimento social.

Consequências disso:
  • Surgem enormes centros urbanos com uma área metropolitana
  • Aparece a máquina. Esta substitui o esforço humano
  • Nasce o conceito de produção em corrente ou produção em série
  • Intensificam-se os meios de comunicação físicos, graças ao caminho-de-ferro, automóvel e barco a vapor
  • Nasce a exploração de recursos naturais como fonte de energia ou matéria prima
  • Nasce o conceito de produtor e de consumidor, separando ao mundo entre grandes comércios e grandes fábricas
  • Intensifica-se o crescimento demográfico
  • A produção e distribuição de bens e de informação passam a ser em massa

Economia e produção

Segundo Alvin Toffler, aparece um "cunho invisível" na sociedade, que a divide entre produtores e consumidores. Enormes fábricas dedicavam-se a fabricar bens para consumidores inconscientes dos mecanismos de obtenção do produto.
A produção é em massa e em série.
A unidade económica da Segunda Vaga é a corporação: enormes organizações com grandes quantidades de capital para investir nas indústrias e comércio.

Sociedade

A modificação do esquema produtivo gerou a necessidade de criar novas estruturas sociais:
  • Trabalho por jornada: o conceito de sincronização leva a gerar um trabalho por jornada horária, cujo centro físico passou a ser a indústria e tudo o que dependa dela. Nasce a inter-dependencia, o esforço colectivo e a divisão do trabalho onde os operários apenas participam numa pequena facção do produto
  • Família nuclear: Este tipo de família surge fruto das necessidades que exige esta sociedade. A família extensa antiga era demasiado rígida. Deu-se a necessidade de eliminar os parentes que não fossem essenciais à sobrevivência, para conseguir um grupo com mais facilidade de deslocação de uma cidade a outra. Neste tipo de família, um conjuge (geralmente a mãe) é o núcleo do lar. O outro conjuge (geralmente o pai) trabalha fora do mesmo. A composição de família nuclear idealizada pelo industrialismo é: pai - mãe - 2 filhos.
  • Educação: ao igual que a produção, a educação foi separada da vida familiar dando lugar ao surgimento de escolas e de programas uniformes. Com a educação escolar impunham-se também estruturas próprias da vida industrial: pontualidade, obediência e trabalho repetitivo.

Em todos os aspectos da sociedade se apresentavam as mesmas características:
  • Uniformização: Para o mesmo fim utilizavam-se os mesmos procedimentos. Estabeleceu-se um sistema de leis e regulamentos que actuavam por igual para todas as pessoas. Nasceram os standards, os formulários, os programas de educação, etc
  • Sincronização: Começou-se a utilizar o horário como esquema de organização. Entradas e saídas do trabalho ou escola a uma hora determinada e produção sincronizada com outra produção dependente dela.
  • Massificação: A produção em série aumentou a capacidade de gerar bens, que se produziam a grande escala de maneira uniforme. Assim, uma empresa fazia bolachas para todo um país; enquanto jornal dava as notícias a um país inteiro, informando milhões.
  • Centralização: geraram-se grandes centros urbanos que concentravam toda a produção e quase toda a população.

Na Revolução Industrial no século XVII impôs-se o cunho invisível, como diz Toffler, no intuito de construir uma sociedade industrial, que tanto foi implementada pela Direita conservadora como pela Esquerda socialista na ex URSS.
Na segunda vaga os Estados tornam-se laicos, disseminou-se a democracia, as repúblicas e o sufrágio universal. A nova filosofia já não valoriza o indivíduo pelo seu nascimento mas sim pelo que pode produzir e pela sua eficiência. Propaga-se o ensino gratuito, universal e em particular profissionalizante.

Comunicações

A dinâmica de comunicação da Segunda Vaga é a comunicação um para vários. Com a invenção da imprensa surge o jornal e depois, os meios de comunicação de massas (também mass média). A rádio e mais tarde a televisão terminam por configurar o conceito. Neste período um, ou uns poucos jornalistas publicavam a informação que consumiriam milhares ou milhões de pessoas. Segundo o autor, não é casualidade que, ao igual que a produção, a informação esteja massificada.

Energia


A energia da Segunda Vaga depende de fontes não renováveis, geralmente de origem mineral como é o carvão, o petróleo e a energia nuclear.

Terceira Vaga


As mudanças que o mundo está a viver nos últimos 40 anos, que têm sido catalogados em muitos casos de "desmoralizadores", na realidade só rompem paradigmas que a segunda vaga nos impôs. E anunciam que a terceira vaga já chegou e estamos a cada vez mais submersos nela.
Caracterizam à terceira vaga a desarticulação e estruturas da Segunda Vaga, a saber:
  • Descentralização
  • "Desmassificação"
  • Personalização
Economia e produção da Terceira Vaga

A produção em série será complementada com a produção em séries curtas. A produção já não se dedica a fazer dezenas de milhares de unidades de um único produto, mas centenas de unidades de centenas de produtos. Assim encontraremos produtos cada vez mais personalizados. Na Terceira Vaga fundamentalmente amplificar-se-à a força mental do ser humano. Os sistemas cibernéticos, computadores, sistemas de comunicação, internet, etc. funcionarão como amplificadores da força mental. Exemplo: podem-se criar programas de computação que são capazes de criar outros programas. Um paralogismo da Segunda Vaga seria o torno, já que foi uma ferramenta que pôde criar outras ferramentas.

Sociedade da Terceira Vaga


A família nuclear cede o seu lugar a infinidade de tipos de famílias. Famílias mono-parentais, individuais, convivência estável entre amigos, convivência entre pessoas do sexo oposto com ou sem relações sexuais, famílias tipo: filho - mãe - avó e/ou filho - mãe - tia, etc.
Nasce a cultura "sem filhos".
O trabalho infantil deixará de ser castigado para passar a ser estimulado. Segundo o autor, homenzitos de 14 anos estarão melhor qualificados para vender computadores que muitos adultos.
Um dos males a combater na Terceira Vaga é a solidão. Isso devido à falta de estrutura que havia na Segunda Vaga e à falta de necessidade de se relacionar.

Comunicações da Terceira Vaga

A dinâmica de comunicação da Terceira Vaga é a comunicação de vários para vários. Como a produção, os meios vão-se "desmassificando". Uma infinidade de revistas especializadas em temas específicos, numerosos canais de televisão por cabo e satélite, a capacidade dos computadores de comunicar; fazem com que a comunicação seja personalizada, e com que o consumidor já não se limite a aceitar "tal e qual vem". Agora o espectador pode intervir nos diários que lê e nos programas de televisão a que assiste.

Entretanto e durante a minha pesquisa vi esta notícia sobre Heidi e Alvin Toffler:

Alvin e Heidi Toffler
Toffler alerta para «mudanças caóticas» no Mundo

O investigador e futurista norte-americano Alvin Toffler alertou hoje para as “mudanças caóticas no mundo” ao falar sobre “um novo contexto estranho”, na conferência “Bioeconomia: a 4/a Vaga”, realizada na Reitoria da Universidade de Lisboa.

Acompanhado pela mulher Heidi, sua “cara-metade” em todo o trajecto profissional, Toffler, 79 anos (agora com 83 anos), começou por alertar - na abertura do III Congresso da Ordem dos Biólogos - para a “mudança da existência humana” decorrente do paradigma em que a biologia se imiscui na tecnologia.
"A solidão é agora tão difundida que se tornou paradoxalmente uma experiência compartilhada." Alvin Toffler

“O emprego é o resultado líquido de muitas políticas convergentes.” Alvin Toffler
Entretanto aqui está a confirmação do livro de Alvin e Heidi Toffler de 1980, A Terceira Vaga:

"Enquanto a Europa definha e empobrece, a China segue em frente, apresentando-se como a potência para a qual, tudo indica, dentro dos próximos 20 anos se verificará uma tranferência total (ou quase) do centro de gravidade económico e financeiro." por Milam do blogue A Insustentável Beleza dos Seres



Fontes:
Guerra silenciosa , Ciencia hoje , Tsf

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